Sunday, November 5, 2006

Claques

Podia enaltecer o espírito primário que (devia) está inerente ao conceito de claque – apoio incondicional a uma equipa, a um emblema, a uma associação, a um grupo, a uma agremiação, a um conjunto de pessoas, seja o que for, em qualquer lado em qualquer altura. Muito bonito, mas não tem piada. Podia falar dos comportamentos perfeitamente civilizados que muitos elementos de claques exibem, quer dentro do estádio, quer, por exemplo, numa bomba de gasolina (estes comportamentos são mais civilizados quanto maior for o grupo…). Mas também não teria muita piada. Podia admirar a coragem de regressarem a casa com os vidros “abertos”, no autocarro. Podia descrever o gajo do megafone, que em noites de Dezembro não precisa de cobrir o tronco, pois o seu tecido adiposo aquece-o. Embora aprecie imenso o facto de ele conseguir falar no dia seguinte, também não teria assim tanta piada. E o tipo do tambor/bombo/jambé? Não pode faltar para marcar o ritmo, mas também não passa disso – pouca comicidade. Ou mesmo o que agita a bandeira gigantesca, pendurado nas grades do estádio! Impressionante a força que deve ter para não cair para trás com o peso daquilo – digno mesmo de um verdadeiro porta-estandarte de uma tuna! Mas esses gajos também nunca tiveram piada. Podia dissecar sobre o elevado nível de falta de dentição frontal dos associados, sobre o enorme número de objectos brilhantes, pendurados em orelhas ou mesmo aos pescoços, o facto de um em cada dois possuir um objecto cortante e/ou um boné/casaco “à claque”, ou ainda sobre o reduzidíssimo, íssimo, grau de alcoolémia/drogas-em-geral-mas-com-especial-atenção-para-as-ditas-leves, presente no sistema circulatório ou digestivo dos sujeitos. Mas isto não passam de lugares-comuns e portanto também não haveria muito mais para dizer. O quem me fascina mesmo é outra questão. É daquelas perguntas, cuja resposta provavelmente é tão óbvia que eu não a sei – mas onde é que estes gajos ensaiam as músicas e coreografias que depois exibem no estádio? Será que se juntam na cave de algum deles?

- “Oh Quim Zé, não me digas que vais trazer para aí os teus amigos outra vez…”

- “Ei oh Mãe, é só hoje …é a minha vez e a velhota do mãozinhas já não fazer para nós daqueles biscoitinhos…”

- “Não gosto nada do aspecto de alguns deles…e fico sempre com a sensação que me desaparecem algumas coisas cá de casa”

- “Isso deve ser aqueles gajos que vêm vender taparuéres. E para mais hoje não vem o Roscas”

- “E fica sempre um cheiro tão estranho, a incenso lá baixo…gostava tanto que voltasses para a catequese…esses meninos é que eram boas companhias!”

Não sei, eu gosto de pensar que é assim, mas duvido, até porque aquilo era capaz de incomodar os vizinhos…Será que existem sedes com salas de ensaio? Também seria uma bonita imagem – um estrado tipo coro, para os meninos todos, um maestro a conduzir e a ensinar as segundas vozes e, claro, a figura mítica, o velhote meio surdo ao piano! Nah…isto das claques não tem assim tanta piada…

Posted by Chichorro at 23:46:21 | Permalink | Comments (17)

Friday, November 3, 2006

Dia dos nossos Santos

Que engraçada que é esta romaria aos cemitérios! Ainda bem que, no meio de tanta agitação e trabalho, conseguimos ter um dia por ano para nos lembrarmos dos que já não estão entre nós. Acho mesmo que eles ficam muito contentes (se é que ainda conseguem sentir algo) por nós dispensarmos umas horitas do nosso curto ano para os visitar. Parece que os estou a ouvir (por muito mórbido que seja…): “ Ena pá! Já não via tanta gente por aqui a mexer-se desde o dia em que me vieram dizer adeus!”. E ele é jarras coloridas cheias de cruzes, flores de plástico, bem vistosas, velas a pilhas, porque as outras apagam-se durante a noite e isto ainda tem que durar algum tempo, varrem-se jazigos, lavam-se campas, visitam-se outras que ficam ali ao lado, mas que bom aspecto com que aquilo fica! E ai de quem demorar menos que o tempo socialmente aceitável – não sente falta nem está triste! E neste dia temos que estar tristes, porque é dia de nos lembrarmos, logo é dia de sentir falta.

Bem, começa a ficar na hora de nos preparmos para logo, joga o Glorioso e uma vitória vinha mesmo a calhar, por isso vamos torcer e sofrer. Hipocrisia? Não, sincera falsidade admitida…Não passa de uma questão de fé – acreditarmos no que queremos para continuarmos a sobreviver.

(texto publicado com 2dias de atraso)

Posted by Chichorro at 01:43:00 | Permalink | Comments (8)