Aquela semana de dois em dois anos
Tudo pronto para aproveitar o que se apresentava ser como uma semana de descanso e praia, em família. Partida sem destino fixo, mas com a certeza de não ir muito longe, nessa bela invenção, que testa os limites da sanidade mental e da agradável convivência social em espaços pequenos, denominada Auto-Caravana. Ok, não vou ver os Sopranos nem o House, mas é por uma causa nobre. Pois bem…dessa semana o saldo apresenta-se bem negativo e longe do prognóstico – um fim de tarde na praia, 24h seguidas na caravana (qual Locke na escotilha) e dois dias em viagem (ida e volta). Causa – amigdalite. Realmente, a garganta até me estava a doer um pouco, mas não liguei e do alto da minha enorme masculinidade fui-me banhar nessas águas tão pouco atractivas do Atlântico. Resultado – no dia a seguir foi-me diagnosticada amigdalite, o que para quem não sabe é o mesmo que ter uma bola de ténis encostada a um dos lados da garganta que impede a saudável passagem de alimentos e líquidos pela garganta, provocando uma enorme dor nesse nobre acto de engolir, com o bónus da febre que pelos vistos gosta de atacar ao fim do dia e à noite, provocando inúmeras horas de insónias. Até aqui nada de especial, tirando os comprimidos de dimensões consideráveis, ideais para quem está com dificuldades ao nível da garganta. O melhor estaria reservado para o dia seguinte em que acordo e quase não consigo falar. Escrevi quase porque considero falar o que os bebés tentam fazer nos primeiros meses de vida. “Hum, isto não está com muito bom aspecto” – ainda bem, não me agrada a ideia de alguém poder vir a comer pedaços da minha garganta – se calhar o melhor é regressar à base, não confiando nos espanhóis, com a mania que não nos percebem ainda fazem asneiras. Poucas horas depois, já de regresso a casa, preparo-me para as tais medidas drásticas. Saio de casa, tipo cão que sabe que vai ao veterinário e não quer, e dou entrada nessa instituição que não me agoira nada de bom, o Hospital. “Deite-se aí e abaixe as calças.”. Não, tudo menos isso…Não pode ser noutro lado? Pelos vistos não, e assim sou confrontado com um dos momentos menos másculos e mais constrangedores da minha ainda curta vida. Sim, porque isto de estar deitado numa maca, literalmente de cú para o ar, com mais duas pessoas acamadas na sala, e duas enfermeiras nas minhas costas, sendo que uma delas apontava uma seringa a partes desprotegidas do meu corpo, não tem muito de engraçado ou construtivo para a minha dignidade. Toma lá uma penicilina e amanhã voltas para outra. Ah, é capaz de te doer UM BOCADINHO quando te sentares. Resultado final – garganta inchada, traseiro dorido e quarentena de alguns dias em casa. Eu não sou muito de ficar doente, mas, senhora Amigdalite, parabéns pelo timing digno de uma lei de Murphy. Bem, pelo menos aqui tenho televisão e Internet…
Só mais uma curiosidade, um dos efeitos secundários desta adorável doença é a produção de saliva em quantidades absolutamente industriais. Como engolir dói, cuspo (para o lavatório que cuspir para o chão é feio) e digo, sem pinta de exagero que já podia ter enchido uma piscina olímpica de saliva.