Wednesday, May 31, 2006

Mecânicos

Sei que todas as profissões têm as suas características muito próprias, e que todas são passíveis de serem estereotipadas, mas os mecânicos são mesmo…peculiares. Quem já foi a uma oficina sabe que todas elas têm um ambiente e aspecto únicos. Carros de capot aberto, sem motor, panos desfeitos cheios de óleo, latas, frascos, recipientes vários cheios de líquidos de diversas cores, tubos, fios, máquinas cuja função nunca hei-de perceber, calendários com mulheres desnudas, pneus, tudo isto é obrigatório para a oficina ser considerada como tal. Isto, sem esquecer o mítico escritório – aquele compartimento minúsculo, com o letreiro na porta, composto apenas por uma secretária, cadeira, muitos papéis espalhados e misturados com calendários e por uma calculadora, daquelas que “imprimem” logo o recibo. Este último é o objecto mais avançado, e só existe porque não pode ser substituído por um ábaco. Tudo isto ao som da rádio local que complementa aquele ambiente…escuro, de paredes sujas (pergunto-me se haverá alguma oficina de paredes brancas…?).

Ao entrar numa oficina sinto-me sempre um miúdo e o meu nível de masculinidade cai a pique. Sinto-me completamente inferiorizado por mecânicos – aquela figura de fato de macaco, que cumprimenta com um “aperto de pulso”, conhece todos os mecânicos da zona e que faz “preços de amigo”, de certa forma intimida-me. Aquilo é que é! Eles andam sempre todos sujos de óleo, metem-se debaixo dos carros, não se queimam, possuem uma parafernália de palavras injuriosas, e derivadas, que não acaba (algumas nem sabia que existiam…), mudam correntes de transmissão e bobines, constroem os seus próprios carros…Sempre que tenho que recorrer a estes serviços fico com uma estúpida e enorme vontade de “perceber” de carros! Quando tiver um filho, vou substituir o jardim-de-infância pela oficina!

Posted by Chichorro at 04:17:19 | Permalink | Comments (5)

Tuesday, May 9, 2006

Normalidade

Gosto sempre de pensar que a normalidade é relativa. Onde começa e acaba a fronteira do que é normal e do que já não é assim tão normal? Quem são os senhores que estabelecem e controlam essas divisões? E, já agora, com base em quê? Um exemplo muito banal: penso que todos nós temos um pouco de doentes, no sentido em que, todos somos um pouco paranóicos, obsessivos, desconfiados, ciumentos, delirantes (por vezes…), com as nossas manias, pancadas, rituais (chamem-lhe o que quiserem), e por aí fora. Correndo o risco de me expor demasiado, eu:

- Tenho sempre a sensação que os seguranças das lojas olham para mim de forma esquisita, como se fosse roubar, e tenho sempre medo que os sensores eléctricos instalados à saída apitem quando eu sair (e não, não tenho a consciência pesada…);

- Entro sempre pelo mesmo lado da cama para me deitar, e saio sempre pelo lado contrário;

- Tenho complexos com notas na carteira. Não que tenha muitas ou que isto aconteça frequentemente, mas acho que não há forma socialmente aceitável de tirar mais que duas notas da carteira…não sei…parece mal…é coiso…

- Não gosto de mudar o rolo de papel higiénico, nem de o usar até ao fim;

- Quando entro num bar, julgo sempre que toda a gente está a olhar para mim, e a criticar as calças, que por acaso estriei nesse dia. O caso mais flagrante, passa-se nos centros comerciais – sempre que atravesso as praças de alimentação, sinto-me tão observado que nem consigo andar normalmente. Quem, na realidade estiver a olhar para mim (3 pessoas no máximo), vai pensar que tenho algum problema de locomoção;

- Tenho um ritual, desde que acordo, de manhã, até sair de casa, e se o altero, parece que o dia não vai correr bem;

- Detesto toalhas novas, não limpam nada;

- E quando convivo pela primeira vez com amigos de amigos, tenho sempre medo que não gostem de mim ou que descubram que sou um puto num corpo de adulto…;

Será que isto é normal ou acabei de ganhar umas visitinhas até uns consultórios de psicólogos?

Posted by Chichorro at 01:23:50 | Permalink | Comments (10)